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São Paulo, 25 de maio de 2017   
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Entrevistas

 

 Filippo Pedrinola
 Entrevista concedida à revista Filhos & Alunos
  
"Os pais devem pensar que a alimentação tem três pontos fundamentais que podem ser guiados pela informação e pelo bom senso: horário, qualidade e quantidade."


O aumento da obesidade é uma realidade que observamos não só na vida adulta, mas também na infância e na adolescência. Como você vê esse fato?

Filippo: A obesidade é considerada uma epidemia mundial, uma doença, e tem de ser tratada como tal. Antigamente, obesidade era vista como falta de vontade, falta de personalidade e os gordinhos eram marginalizados. Na verdade, obesidade é uma doença multifatorial, as causas são inúmeras. Uma delas é o componente genético, que é bastante importante. Existem vários gens ligados à obesidade e muitos estudos vêm apontando perspectivas de tratamento muito interessantes.

Uma criança que tem os pais obesos possui mais chances de se tornar um adulto obeso?

Filippo: Tem muito mais chances. Se o pai e a mãe não são obesos, a chance de o filho ser obeso é de 10%. Já se um dos pais for obeso, a chance vai para 40%. E, finalmente, se o pai e a mãe são obesos, a probabilidade de o filho ser obeso pula para 80%. Isso mostra que o componente genético pesa literalmente. Mas os hábitos nesses casos também contam. É o componente comportamental em casa. Existem estudos de gêmeos univitelinos separados na infância e criados por famílias diferentes que mostram uma tendência maior ao aumento de peso em famílias cujos hábitos alimentares não são bons. Então é claro que o fator genético é importante, mas existe uma preocupação com o meio em que a criança cresce.

Como saber se a criança está obesa?

Filippo: O Índice de Massa Corpórea (IMC), usado para diagnóstico em adultos, também já foi estabelecido para a infância com tabelas que mostram se a criança está ou não obesa. O diagnóstico é importante porque evidencia a gravidade do problema. Existem casos de necropsias feitas em crianças que morreram por outros motivos em que foram encontrados depósitos de colesterol nas coronárias. Isso em crianças de 5 anos.

Esse fato mostra a relação entre obesidade infantil e doenças futuras?

Filippo: Sim, doenças como aumento das taxas de gordura no sangue, pressão alta, diabetes, fora os transtornos psicológicos, se somam. Quanto antes a criança começa a se tratar, melhor o resultado.

Se, em casa, o fato de ingerir alimentos calóricos for uma constante, fica difícil a criança mudar os hábitos. Como a família pode participar do tratamento?

Filippo: Não adianta tratar somente a criança. O comprometimento familiar no tratamento é fundamental. Temos que considerar a família toda. A criança depende do adulto. Quem faz o supermercado tem que reaprender a comprar para oferecer coisas saudáveis para os filhos. A criança tem que abrir o armário e encontrar opções saudáveis. Muda-se o hábito sem existir pressão. O exemplo deve partir dos pais. Se os pais estão acima do peso, que exemplo essa criança vai ter?

E quanto ao lanche da escola?

Filippo: A criança passa uma boa parte da vida na escola. Por isso é necessária uma interação entre a escola e a família. Os pais têm que se preocupar em mandar um lanche saudável; e a escola, por sua vez, deve ter uma orientação nutricional, uma cantina com alimentos saudáveis. O tempo que a criança fica na escola nem sempre é fácil de controlar porque também tem os amigos que trocam lanches. Isso não significa que devemos proibir. A maioria dos alimentos que aparecem em propagandas para as crianças é com alto teor de gordura e carboidrato. A criança vê, fica com vontade. E proibir não funciona. A Abeso (Associação Brasileira de Estudos sobre a Obesidade) tem uma campanha chamada "Dieta Não" porque falar "não pode isso, não pode aquilo" dá mais vontade. A orientação é comer com restrições. Uma vez por semana, podemos levar as crianças para uma lanchonete e comer um hambúrguer, por exemplo. Só que não vamos pedir a batata frita. Pedimos um refrigerante light. Não precisamos pedir o sundae. Quanto mais a criança entender o que é uma boa alimentação, mais ela vai conseguir se cuidar.

Muitos pais proíbem as guloseimas durante a semana e as liberam nos finais de semana. Esse tudo ou nada também é complicado?

Filippo: Sim, porque não é para proibir nem liberar totalmente. O que mais funciona é a mudança do hábito alimentar. É ter o hábito de fazer exercício físico. Tudo isso deve ser constante. A compensação no final de semana pode até ser interessante se for por um dia, ou comer um doce, sempre com moderação. Com a liberação total ou com a proibição total, o hábito não se instala.

Ainda é comum as crianças terem uma bala ou um chocolate como prêmio por algum bom comportamento?

Filippo: É comum, mas se isso for uma constante, também vira um problema porque a criança associa a ingestão de um alimento calórico à idéia de algo muito gratificante. É uma recompensa que tem implicações importantes.

As férias estão chegando e a preocupação com o corpo aumenta nesta época do ano. O imediatismo, típico na adolescência e cada vez mais comum na pré-adolescência, leva a abusos perigosos?

Filippo: É o chamado desespero de verão, que lota os consultórios dos nutricionistas e endocrinologistas. A criança e o adolescente estão em fase de crescimento. Se você impõe um emagrecimento violento, você pode prejudicar o crescimento. Nós temos que pensar que cada centímetro que a criança cresce corresponde a mais ou menos 1 quilo. Muitas vezes, a combinação com a criança ou o adolescente obeso, que está em crescimento, é de manter o peso. Somente crescendo, o peso vai, aos poucos, caminhando para o normal. Mas é muito comum o excesso de dieta e o excesso de exercícios físicos nessa fase. E os pais devem ficar atentos com relação a comportamentos diferentes que levam ao emagrecimento. Os pré-adolescentes e adolescentes, escondido dos pais, usam laxantes, provocam vômitos, conseguem remédios de uso controlado que são ingeridos sem critério. Isso é muito comum em meninas. Já os meninos partem, muitas vezes, para uma busca do corpo forte, o chamado "Complexo de Adonis", e tomam anabolizantes, que também representam um problema sério.

E os suplementos alimentares?

Filippo: Estão sendo muito usados também, com a promessa de melhorar a performance esportiva, de crescer, ficar "sarado". E sempre deveria haver uma indicação. Na verdade, na maioria dos casos, não há necessidade do uso de suplementos. As necessidades são supridas com uma alimentação adequada. A não ser em casos de esportistas de alto nível, os suplementos podem ser usados, mas sempre com uma indicação médica.

Que sugestões você daria para os pais preocupados com a alimentação de seus filhos?

Filippo: Em primeiro lugar, é dar o exemplo dentro de casa. É pensar que o filho vai comer o que lhe for ofertado. Em segundo, é tentar uma interação com a escola. É importante se preocupar com o lanche, conversar com a professora, procurar saber que tipo de trabalho nutricional está sendo realizado na escola. O terceiro ponto é incentivar a atividade física. E, finalmente, os pais devem pensar que a alimentação tem três pontos fundamentais que podem ser guiados pela informação e pelo bom senso: horário, qualidade e quantidade.


Filippo Pedrinola é Doutor em Endocrinologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
Entrevista concedida à revista Filhos & Alunos nº 2




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